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Cuidadores levam atenção especial a idosos, mas profissão traz desafios

Cuidador de Idosos Antônio Lucena e seu assistido Laercio Bezerra de Melo - Foto: Cedida

Em 20 de março o Brasil celebra o Dia Nacional do Cuidador de Idosos, ocupação que saltou de 5.263 profissionais em 2010 para 34.051 em 2022, um aumento de 547% em todo o país, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).

O envelhecimento da população brasileira ajuda a explicar o crescimento do mercado de cuidadores de idosos no país. De acordo com Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com mais de 65 anos cresceu 57,4% em 12 anos. Atualmente, o Brasil tem mais de 22 milhões de idosos, 10,9% da população.

Os dados no Rio Grande do Norte também são expressivos. O estado obteve o maior índice de envelhecimento da população no Nordeste, alcançando índice de 53,05 em cálculos realizados pelo IBGE. O Instituto estabelece que, para cada 100 crianças entre 0 e 14 anos, existem 53 idosos de 65 anos ou mais no estado. Quanto maior o valor desse indicador, mais envelhecida é a população.

Dia do Cuidador de Idosos

De acordo com o Projeto de Lei 539/2011, que instituiu 20 de março como a data comemorativa nacional para os Cuidadores de Idosos, o objetivo é contribuir para a valorização dos profissionais e conscientizar os brasileiros sobre a importância de seu papel na sociedade.

A técnica em enfermagem e cuidadora de idosos Talita Bezerra, de 26 anos, falou ao AGORA RN sobre a felicidade de receber o reconhecimento pela sua profissão, que está em pleno crescimento. “O que antes costumava ser obrigação da família, agora passa a ser profissionalizado, por isso a data é muito importante”, disse ela.

A fala de Talita aponta uma transformação na cultura das famílias brasileiras, que vêm transferindo a responsabilidade dos cuidados com idosos para os profissionais. Mas a mudança também traz desafios. Segundo Talita, que já está há três anos no ramo, os principais deles são o sentimento de abandono familiar, a predisposição para a tristeza e até a depressão que acomete os idosos.

“Geralmente, eles trabalharam a vida inteira e de repente se veem aposentados em casa, sem fazer e sem atenção da família. Vários ficam deprimidos e os cuidadores travam uma batalha contra essa depressão deles”, disse.

Para enfrentar os desafios, Talita aposta na preparação profissional e muito diálogo. “Uma família contrata um cuidador não por que está abandonando, mas porque tem muito amor. As famílias hoje em dia levam vidas corridas, não têm tempo para cuidar dos mais velhos como eles precisam, e é aí que a gente entra, porque os idosos precisam de muita atenção, eles gostam de conversar”.

Talita Bezerra, Cuidadora de Idosos em Natal, falou ao AGORA RN sobre desafios da profissão Foto: CedidaTalita Bezerra, Cuidadora de Idosos em Natal, falou ao AGORA RN sobre desafios da profissão Foto: Cedida
Talita Bezerra, Cuidadora de Idosos em Natal, falou ao AGORA RN sobre desafios da profissão – Foto: Cedida

A conversa faz parte das atribuições da profissão, que também tem muitas outras responsabilidades. “A gente atua quase como um psicólogo. Tem dias que o paciente está triste, lembrando do passado, dizendo que ‘hoje eu não sou ninguém, me sinto inválido’, mas nós temos que mostrar que ele tem valor, sim. Que ele é importante e que se a família contratou um profissional é porque quer que ele seja bem cuidado”, disse Talita.

Com ela concorda o enfermeiro e cuidador de idosos Antônio Lucena, de 33 anos, dos quais 12 foram dedicados à profissão. “A gente é médico, psicólogo, familiar. A maioria dos meus assistidos passam por depressão e a gente tem que ter sabedoria e preparo para lidar com isso. Eles sentem a falta dos filhos, às vezes se sentem impotentes por não ter a mesma vida de antes, às vezes tem ausência da família”, enumerou.

Segundo Antônio, nem sempre os idosos entendem a ausência dos familiares. “Eles se revoltam, não compreendem. Eu busco amenizar com a conversa, enchendo de carinho, criando uma rotina rica pra suprir um pouco daquilo que falta”, disse ele.

Profissionalização

Cuidador de idosos é considerado uma ocupação, e integra a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO.

Para quem deseja adotar a profissão, os entrevistados indicam preparo.

“Primeiro, é preciso ter amor ao que faz. Paciência também é necessária, pois alguns idosos são impacientes, alguns são agressivos. Recomendo pensar se é isso mesmo que a pessoa quer, se tem o perfil. Se sim, fazer um curso de qualificação. Eu fiz o curso técnico de enfermagem e o curso de primeiros socorros. Tem que aprender a aferir pressão, sinais vitais, administrar remédios, acolher em caso de intercorrência”, afirmou Talita Bezerra.

“Aprendi uma frase na faculdade que diz ‘deixe seu suor no campo de treinamento, para não deixar seu sangue no campo de trabalho’. Isso significa que a gente tem que se preparar muito, com cursos, com treinamentos de como lidar com o paciente, para quando for atender não ter problemas nas intercorrências. Se preparar, se aperfeiçoar e, claro, ter muito amor”, sugeriu Antônio Lucena.

Cuidador de Idosos Antônio Lucena e seu assistido Laercio Bezerra de Melo - Foto: CedidaCuidador de Idosos Antônio Lucena e seu assistido Laercio Bezerra de Melo - Foto: Cedida
Cuidador de Idosos Antônio Lucena e seu assistido Laercio Bezerra de Melo – Foto: Cedida

Cotidiano do cuidador de idosos

A rotina de trabalho de um cuidador de idosos é diferenciada. Enquanto a maioria dos profissionais formalizados do Brasil trabalham cerca de 8 horas diárias, os cuidadores enfrentam jornadas de 24 horas.

Talita Bezerra disse que optou pela escala 24 por 72 horas com apenas uma paciente, para poder se doar. Ela chega às 9 horas no trabalho e só sai às 9h do dia seguinte, quando uma colega ocupa seu posto.

“Alguns dizem que eu tenho sorte por ter três dias de folga, mas não veem que as 24 horas de trabalho são puxadas. Não julgo quem sai de um idoso e vai pra outro, mas é cansativo. A gente se deita, mas não dorme. Tem que ficar alerta o tempo todo. Por isso que eu só cuido de uma paciente, para não pegar uma carga excessiva e não conseguir me doar ao que estou fazendo”, disse ela.

Já Antônio Lucena escolheu trabalhar das 7 da manhã até às 7 do dia seguinte, com duas escalas, mas com o mesmo paciente. Ele contou que tem 2 horas de descanso a cada 12 horas de trabalho.

As tarefas são comuns a ambos: administrar medicação, fazer atividades recreativas, ajudar no banho, oferecer refeições, fazer caminhadas. O que muda depende do grau de autonomia do idoso.

“Tem paciente que tem que dar comida na boca, tem paciente totalmente dependente. O assistido que eu tenho hoje tem mobilidade reduzida, mas a gente estimula a tomar banho sozinho, comer com a própria mão. Cortamos a carne, por exemplo, mas estimulamos a comer sozinho”, disse Antônio.

Apego

Os profissionais também precisam cuidar da própria saúde mental para lidar com a morte dos idosos aos seus cuidados.

“A minha experiência me exigiu passar por acompanhamento psicológico para lidar com a perda de uma idosa de quem cuidei. A única certeza da vida é que um dia todos nós vamos partir, e a gente fica triste, lógico, a gente não é um robô, mas é a lei da vida”, disse Talita.

“É difícil até de falar. Eu já sofri bastante. A maioria dos meus assistidos eu só deixo quando eles vão embora. Sempre que um assistido parte eu digo que não vou mais me apegar a nenhum, porque quando parte eu fico sofrendo. Mas é impossível não se apegar. A profissão é difícil, mas o simples gesto deles com a gente, a gente se apega. E a partida deixa um vazio terrível”, finalizou Antônio.

AgoraRN

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